A cosmovisão dos batistas brasileiros

RESUMO

Os batistas são parte da revolução inglesa e tiveram a sua origem, em 1607, no interior do amplo movimento puritano. Em 1638, eles chegaram ao continente americano e se estabeleceram na Nova Inglaterra, de onde se espalharam por todos os Estados Unidos. Em 1871, eles chegaram ao Brasil, oriundos do sul dos Estados Unidos e se estabeleceram em Santa Barbara d’Oeste, Estado de São Paulo. Hoje, os batistas são o terceiro maior grupo religioso do Brasil, depois da Igreja Católica e das Assembleias de Deus, contudo, não é um grupo único. O movimento batista no Brasil está dividido em pelo menos quinze grupos denominacionais e este texto se propõe a identificar os princípios distintivos universais que os une e a filosofia de ministério pastoral que os rege.

Palavras-chaves: batistas; cosmovisão batista; eclesiologia batista; princípios distintivos universais batistas.

INTRODUÇÃO

As Igrejas batistas estabelecidas no Brasil e espalhadas pelo mundo, formam uma grande família protestante de origem anglo-americana. Quem olha para esse grupo denominacional não imagina o quanto custou caro o seu desenvolvimento, crescimento e expansão. Segundo Clouse, Pierard e Yamauchi, os batistas do século XVII representaram o mais duradouro dos movimentos puritanos separatistas do seu tempo. Eles conseguiram ir além dos outros reformadores da época e combateram o batismo infantil, insistiram no batismo de crentes adultos e lutaram até a morte pelo direito da liberdade de consciência do indivíduo.
Os batistas, hoje, já ultrapassaram a casa dos 100 milhões de seguidores, mas apenas 46 milhões deles estão filiados a Aliança Batista Mundial (ABM) , enquanto o restante está espalhado pelos cinco continentes do planeta Terra, divididos em mais de 211 corpos denominacionais . Eles não mudaram muito através dos séculos, continuam crendo no batismo adulto por imersão, na separação entre Igreja e Estado, na autonomia das igrejas locais e na liberdadede consciência do individuo. Mas qual é a origem do nome batista? Quando o termo batista foi usado pela primeira vez como designação denominacional?
O termo batista vem do Novo Testamento Grego e significa “aquele que batiza”. Segundo o historiador Newman, o uso do termo batista como uma designação denominacional apareceu primeiramente no ano de 1644, na Inglaterra, vindo do idioma alemão, taüfer(batista), que já era usado na Europa e teve origem no século XVI para se referir ao movimento antipedobatista( tendências contrárias ao batismo de infantes).

Os crentes batistas ingleses, segundo Newman, preferiam ser chamados de “crentes batizados”, “irmãos cristãos”, “discípulos de Cristo” ou“cristãos neotestamentários”, menos batista, pois este termo para eles era uma abreviatura de um nome afrontoso conhecido por anabatista , o que significava, conforme Anderson, uma identificação com o fanatismo, a heresia, a sedição e a imoralidade em nome da religião, pois o odiado movimento anabatista se tornara desacreditado depois do massacre de Münster, na Alemanha, na década de 1530.

Newman explica que, em 1654, as igrejas batistas inglesas recebiam a designação comum de “igrejas batizadas”, “Igrejas de Cristo na Inglaterra, Escócia e Gales”, “ Igrejas de Cristo em Londres” e “ Igrejas de Cristo na Irlanda”. Só a partir de 1670, o termo batista foi gradualmente adotado como designativo denominacional, sendo usado, inclusive, em 1672, em uma licença real.

O nome batista, hoje, é conhecido mundialmente, mesmo com as perseguições religiosas sofridas. Ontem, em 1612, eles tinham apenas uma igreja de dez membros no subúrbio de Londres ; em 1626, tinham cinco igrejas ; em 1644, 54 ; em 1660, 217 ; em 1863, 1.245 ; em 1939, 3.235 igrejas e 388.373 membros em toda a Grã-Bretanha, além de 12 milhões de seguidores em todo mundo . Em 1999, os batistas tinham 162.465 igrejas espalhadas pelo mundo ; em 2007, eram 170.807 ; em 2013, eram 175.388 .

No Brasil, o movimento batista chegou pela instrumentalidade dos imigrantes norte-americanos que estavam fugindo das consequências terríveis da Guerra da Secessão (1861-1865) e que se estabeleceram em Santa Barbara d’Oeste, no Estado de São Paulo, em 1871. No dia 10 de setembro daquele mesmo ano organizaram a primeira igreja batista em solo brasileiro, com 23 membros e sob a liderança pastoral de Richard Ratcliff (1831-1912), na colônia de Santa Barbara .
No dia 2 de novembro de 1879, foi organizada a segunda igreja batista na região de Santa Barbara, com 12 membros e pastoreada por Elias H. Quillin (1822-1886). Somente com a chegada de dois casais de missionários enviados pela Junta Missionária de Richmond da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos ( William Buck Bagby e Anne Luther Bagby, Zachary Clay Taylor e Kate Crawford Taylor), mais o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, que se tornou o primeiro batista brasileiro, foi organizada a terceira igreja batista em solo brasileiro, no dia 15 de outubro de 1882, no Estado da Bahia, com apenas cinco membros.

Em 1900, segundo Reis Pereira, já havia igrejas batistas em dez capitais brasileiras e mais 25, em outras cidades, totalizando 1.500 membros. Em 1907, foi organizada a Convenção Batista Brasileira (CBB), o primeiro e maior corpo denominacional batista em solo brasileiro. Com o passar dos anos, o movimento batista que, até então, era unificado ideologicamente, começou a se pluralizar. Em 1912, os batistas independentes (de essência pentecostal) chegaram ao Brasil oriundos da Suécia; em 1936, os batistas regulares; em 1940, os batistas do evangelismo mundial; na década de 1950, os batistas bíblicos, os batistas do sétimo dia e os batistas do livre-arbítrio, todos oriundos dos Estados Unidos.
Hoje, os batistas no Brasil formam, de acordo com os dados do IBGE mais recentes, uma comunidade com mais de três milhões de seguidores , divididos em dezesseis grupos , dos quais a Convenção Batista Brasileira é o maior, com 13.436 igrejas e congregações que somam 1,7 milhões de membros, o que representa 0,81% da população brasileira. A Convenção Batista Nacional (CBN), o segundo grupo do Brasil tem mais de 2.323 igrejas e 412.570 membros , seguido da Convenção das Igrejas Batistas Independentes (CIBI) com 969 igrejas e congregações que somam 70 mil membros e dos batistas regulares com cerca de 700 igrejas e mais de 50 mil fiéis.

1.A CONSTRUÇÃO DA COSMOVISÃO BATISTA INGLESA

Segundo Japiassu e Marcondes, uma cosmovião é uma “concepção global, caráter intuitivo e pré-teórico, que um individuo ou uma comunidade formam de sua época, de seu mundo, e da vida em geral” . Todo grupo religiosos tem uma cosmovisão própria e os batistas não são diferentes neste particular, porque entendem que a sua cosmovisão é um “conjunto detalhado de crenças combinadas de forma consistente e coerente.”
A construção da cosmovisão batista aconteceu no calor das adversidades sociais da Inglaterra do século XVII. Segundo Azevedo, os batistas são parte da revolução inglesa e tiveram a sua origem no amplo movimento puritano . E Reily confirma que os batistas atuais são fruto do movimento puritano – separatista da reforma inglesa e um grupo religioso herdeiro da Reforma Protestante do século XVI.
O estudo da historiografia batista confirma que o modo de ser, pensar e agir desse grupo religioso determinou o seu impacto na sociedade ocidental, seu crescimento, desenvolvimento e expansão. Primeiro, porque toda cosmovisão é uma lente de interpretação da vida que pressupõe uma identificação com um conjunto de suposições e conceitos que sustentam a razão de ser das pessoas em relação ao sentido da vida e, segundo, porque necessariamente toda cosmovisão é dinâmica e envolve pensamentos, linguagens, valores, intenções, tensões e práticas que afetam a realidade social.
A cosmovisão contribui decisivamente para o fortalecimento da identidade de um grupo religioso. Os batistas ingleses do século XVII enfatizaram desde o inicio a liberdade religiosa e de consciência, a separação entre Igreja e Estado, o batismo de crentes , a ceia memorial e uma eclesiologia democrática e autônoma. E o mais interessante e que essa identidade sempre foi mantida. Segundo Vedder, desde 1641 as doutrinas e as práticas batistas tem sido as mesmas em toda a sua essencialidade, desde o século XVII até os nossos dias. E Almeida confirma que os batistas mantiveram não só as doutrinas, mas, também, os princípios formais e materiais da Reforma Protestante do século XVII.
Segundo Torbet e Faircloth, a base da cosmovisão batista inglesa era bem defendida: a Bíblia como única regra de fé e conduta; a igreja local composta de crentes batizados; o sacerdócio universal dos crentes em Cristo; a autonomia da igreja local; a liberdade religiosa como fundamento do exercício de uma fé saudável e a separação entre a Igreja e o Estado.
O movimento batista, através dos tempos, redigiu diversas confissões de fé que resumiam o seu pensamento doutrinário, mas todas as denominações verdadeiramente batistas, sempre estiveram vinculadas a um conjunto de princípios, conhecidos como “Princípios Distintivos Universais dos Batistas”. A cosmovisão batista tem sido salvaguardada à luz das Escrituras Sagradas e da sua herança histórica.
Segundo Azevedo, os primeiros batistas ingleses eram arminianos. Só a partir de 1638 que surgiu a primeira igreja batista de teologia calvinista. Mesmo seguindo linhas teológicas diferentes os dois grupos sempre prezaram dois princípios centrais da fé batista: a autoridade da Bíblia e a competência do indivíduo. Os batistas gerais, segundo Almeida, eram mais populares, evangelísticos em propósito e dedicados à liberdade religiosa, adotando uma disciplina restrita ao padrão puritano e, em alguns aspectos, a ordem nas igrejas era mais presbiteriana que congregacional.
Já os batistas particulares seguiam uma liturgia fundamentada na Bíblia e um culto centrado na pregação expositiva; defendiam a predestinação incondicional e a soberania plena de Deus sobre as coisas e pessoas; enfatizavam que os cristãos não estavam debaixo da lei, mas da graça de Deus; não tinham muito fervor evangelístico e a participação na ceia do Senhor ficava sujeita à decisão da igreja local.
Os batistas gerais praticaram no inicio, o batismo por afusão e só depois, em 1650, adotaram o batismo por imersão. Já os batistas particulares começaram a questionar a forma de batismo em 1638, e em 1641 chegaram a conclusão de que o batismo bíblico era a imersão do corpo na água , simbolizando o sepultamento e ressurreição para uma nova vida em Cristo. Segundo Vedder, a justificativa bíblica convincente sobre o batismo dos crentes por imersão foi apresentada na Primeira Confissão de Londres, em 1644.
A base teológica da cosmovisão batista foi construída pelos três primeiros líderes do movimento: John Smyth ( 1550-1612), Thomas Helwys (1550-1616) e John Murton (1585-1621). Smyth foi o pastor da primeira igreja batista organizada em Amsterdã, na Holanda, em 1609, com 37 membros. Helwys foi o pastor da primeira igreja batista em solo inglês, organizada em 1612 e com dez membros, enquanto Murton foi o sucessor de Helwys, quando este morreu na Prisão de New Gate, em 1616, onde estava desde 1613.
Os primeiros escritos de John Smyth que ajudaram na construção da eclesiologia batista foram: “Um Modelo de Verdadeira Adoração” ( 1605), “Princípios e Inferências Concernentes à Igreja Invisível”( 1607), “Paralelos, Censuras e Observações” (1609), “O caráter da Besta”(1609) “Uma Confissão da Fé de 20 Artigos” (1609), “Uma Confissão de Fé de 38 artigos (1610), “Ultimo Livro” (1612) e “Proposições e Conclusões Concernentes a Verdadeira Religião Crista” (1612), uma confissão de fé batista com 100 artigos.
Thomas Helwys reafirmou a eclesiologia, a cristologia e o conceito batista de liberdade de consciência através dos seus três textos “Sinopse da Verdadeira Fé da Igreja Cristã”(1609), “ Uma declaração de Fé do Povo Inglês Permanecendo em Amsterdã na Holanda”( terceira confissão de fé batista redigida em 1611) e “ Breve Declaração do Mistério da Iniquidade”(1612). Já John Murton enfatizou a liberdade de consciência e de religião em duas obras: “Objeções Respondidas Por meio de Diálogo” (1615) e “ A Mais Humilde Súplica de Muitos dos Leais Súditos da Majestade do Rei”(1620).
Teologicamente, os batistas gerais ingleses do século XVIII acreditavam em cinco pontos fundamentais: no livre arbítrio ( o Deus soberano graciosamente capacita cada pecador a se arrepender e crer, mas não interfere na liberdade de escolha do homem); na eleição condicional ( na escolha do pecador por Cristo está a causa e essencial da salvação humana); na expiação geral ( Cristo morreu na cruz para a redenção de todos os homens que o aceitam pela fé); na resistência humana ao Espirito Santo ( o Espirito de Deus faz tudo o que pode para trazer o pecador à salvação, mas o livre arbítrio do homem pode levá-lo a resistir ao chamado do Espírito Santo); e no cair da graça ( os salvos podem perder a salvação se não perseverarem na fé e numa vida de santidade cristã).
Os batistas particulares ingleses do século XVII também acreditavam em cinco pontos fundamentais: na depravação total( o pecador está totalmente cego, surdo e morto para as coisas de Deus; sua vontade não é livre, está escravizada); na eleição incondicional ( Deus escolhe o pecador para a salvação e não o pecador que escolhe a Cristo); na graça irresistível ( a chamada do Espírito Santo é dirigida somente aos eleitos e não pode ser resistida, sempre resultará em conversão); na expiação limitada ( Cristo morreu apenas pelos eleitos conforme a vontade soberana do Pai), e na perseverança dos santos ( todos os salvos são eleitos de Deus em Jesus Cristo e não podem desistir ou perder a salvação).
Os batistas gerais na Inglaterra do século XVII estavam divididos em três grupos: os batistas gerais originários , que organizaram a primeira igreja batista em Amsterdã, na Holanda, no ano de 1609 e que, depois , em 1612, organizaram a primeira igreja batista em Londres e suas quatro primeiras igrejas filhas; os batistas gerais dos seis princípios, que defendiam seis pontos doutrinários à luz de Hebreus 6: 1,2 (arrependimento das obras mortas, fé em Deus, doutrina do batismo, doutrina da imposição de mãos, ressurreição dos mortos e julgamento final) e os batistas gerais do sétimo dia, que organizaram a primeira igreja em Londres, no ano de 1617, e se destacavam pela guarda do sábado como dia do Senhor.
Com o passar dos anos, os batistas do sétimo dia aderiram a teologia calvinista e se tornaram conhecidos como batistas particulares sabatarianos, trazendo uma grande contribuição para a causa batista nas áreas da doutrina e da militância política. No século XVIII, surgiram os batistas gerais da nova conexão, liderados por Dan Taylor (1738-1816), que revolucionaram a evangelização e a filosofia ministerial na Inglaterra e em toda a Grã-Bretanha.
Os batistas gerais originários foram os autores das quatro primeiras confissões de fé do movimento batista mundial: a Curta Declaração de Fé (1609), com 20 artigos; uma Declaração de Fé (1610), com 38 artigos; Uma Declaração de Fé do Povo Batista Remanescente em Amsterdã, na Holanda (1611), com 27 artigos; e Preposições e Conclusões Concernentes a Verdadeira Religião Cristã (1612), com 100 artigos.
Nessas confissões de fé foi condenada a doutrina da predestinação incondicional; enfatizado o batismo de crentes regenerados mediante pública profissão de fé ; estabelecida a autonomia congregacional nas escolhas dos seus líderes mediante eleição; defendida amplamente a liberdade religiosa; destacada que a função dos magistrados na sociedade não é interferir na religião das pessoas e nem na igreja local; estabelecida a verdade de que Deus criou o homem com livre-arbítrio.
Os batistas do sétimo dia ( gerais ou particulares) defendiam a autoridade da Bíblia entendiam que o sábado era uma exigência imprescindível do cristianismo bíblico. Pregavam e praticavam a observância confidencial do sábado como o sétimo dia da Lei do Senhor. Seus princípios distintivos sempre foram a liberdade de consciência, a separação entre igreja e Estado, a liberdade religiosa, o sábado de Cristo e o decálogo, o batismo de crentes por imersão, o lava-pés como ordenança e a unção de enfermos.
No século XVII, na Inglaterra, também existiam os batistas particulares (calvinistas ortodoxos) e os batistas particulares estritos (hipercalvinistas), que cresceram nos séculos XVIII, XIX e XX. Eles se dividiram em dois grupos ultraconservadores: os batistas estritos do evangelho padrão e os batistas estritos da soberana graça. A filosofia ministerial batista inglesa foi complementada por eles em cinco aspectos: pregação expositiva constante, ênfase no ensino bíblico e no discipulado cristão, cultivo de uma vida piedosa e prática da visitação.

2.A CONSTRUÇÃO DA COSMOVISÃO DOS BATISTAS DOS ESTADOS UNIDOS

Segundo Baker, seis grupos religiosos participaram da primitiva colonização dos Estados Unidos: a Igreja da Inglaterra, em 1607; os congregacionais, em 1620; a Igreja Reformada Holandesa (calvinista), em 1623; os luteranos, em 1623; os católicos romanos, em 1634, e os batistas, em 1638. E quando os batistas chegaram ao Novo Mundo alguns princípios distintivos já estavam bem amadurecidos: o poder autoritativo da Bíblia como Sagrada Escritura; a não responsabilidade de Deus pelo pecado do homem; a necessidade do arrependimento dos pecados; o novo nascimento como fruto da graça interventora de Deus; o batismo como manifestação exterior da morte e ressurreição de Cristo e da nova vida nele; o livre arbítrio do homem; a morte propiciatória de Cristo por todos e não só pelos eleitos; a separação total entre Igreja e Estado; o batismo por imersão em nome da Santíssima Trindade e a igreja local como uma comunidade de pessoas crentes em Cristo que se reúnem para restar culto público a Deus.
O inicio do movimento batista nos Estados Unidos não foi fácil porque na região da Nova Inglaterra já estavam estabelecidos os anglicanos e os congregacionais, dois opositores iniciais. A princípio, os batistas achavam que seriam bem recebidos pelos puritanos que foram perseguidos na Europa , mas logo perceberam que não eram bem-vindos ao Novo Mundo e que seriam perseguidos com constância.
Segundo Torbet e Faircloth, a herança e fundo histórico dos batistas norte-americanos eram de origem britânica, pois a maioria dos batistas que se estabeleceram no Novo Mundo eram das ilhas britânicas: ingleses, gauleses, escoceses e irlandeses. Eles procuravam fugir à restrição que na Europa era imposta à sua fé e prática religiosa, defendendo três princípios básicos da dissidência inglesa: o amor pela liberdade religiosa e pela autonomia da igreja local, além da separação entre Igreja e Estado.
O primeiro imigrante inglês a defender os princípios batistas na América do Norte, segundo Muirhead, foi o pastor anglicano Roger Williams (1603-1684) que imigrou para a Nova Inglaterra, em 1631, fugindo das medidas perseguidoras de Charles I (1625-1649). Williams era formado em medicina e em teologia pela Universidade de Cambridge, e acabou se tornando um ardente separatista e defensor da total liberdade religiosa, o que lhe acarretou um desterro da colônia de Plymouth, em 1635.
Mas de onde veio esta mentalidade de total liberdade religiosa de Roger Williams? Segundo Baker, Williams recebeu uma forte influência dos escritos de Thomas Helwys (1550-1616) e de John Murton (1585-1621), seus contemporâneos. Em 1638, Williams fundou a colônia de Rhode Island e ali garantiu a liberdade religiosa para todas as pessoas que o seguiram e apoiaram o seu empreendimento. Contudo, o seu grande feito para eternizar o principio batista da liberdade religiosa foram as suas duas obras “O Principio Sangrento Por Causa da Consciência”(1644) e “Cristianização Não Faz Cristãos”(1645).
Em março de 1639, Williams se tornou batista e foi batizado por Ezekiel Holliman (1586-1659). A seguir, os dois batizaram a outros que aceitavam o batismo de crentes e organizaram a Primeira Igreja Batista de Providence. Mesmo sendo o primeiro pastor batista da América, Williams não ficou muito tempo no pastorado da primeira igreja batista em solo americano, sendo sucedido por Thomas Olney (1605-1682).
Depois da saída de Roger Williams da Primeira Igreja Batista de Providence, ela ficou fraca por muitos anos. Muito embora Brackney afirme que no começo essa igreja tenha seguido a teologia calvinista , Muirhead afirma que o tipo do ensino dos batistas gerais, com a insistência na imposição de mãos como ordenança de Cristo, prevaleceu até 1652, o que ocasionou uma forte divisão. Torbet e Faircloth informam que duas facções surgiram dentro da igreja, uma arminiana e a outra, calvinista. Vedder explica que parte do grupo arminiano permaneceu e outra parte saiu para organizar uma igreja batista dos seis princípios.
O interessante é que a segunda igreja batista do continente americano, a Primeira Igreja Batista de Newport, em Rhode Island, organizada em 1644 e liderada pelo médico e pastor John Clarke (1609-1676), se dividiu em 1656, dando origem a Igreja Batista dos Seis Princípios de Newport, a primeira igreja dos batistas dos seis princípios na América , mais conhecida pela maioria dos historiadores apenas como Segunda Igreja Batista de Newport.
John Clarke e Roger Williams conseguiram o alvará da colônia de Rhode Island somente, em 1663. E enquanto este alvará não chegou na Nova Inglaterra, os batistas foram vítimas de perseguição constante, pois recusavam o batismo de infantes, a perseguição do Estado Inglês aos defensores da livre consciência e da liberdade religiosa e insistiam na separação entre Igreja e Estado.
Com a perseguição aos batistas na América Colonial três coisas aconteceram: eles aumentaram em número, na variedade de expressões e se espalharam pelas outras colônias. Brackney identificou, durante esse período, oito diferentes grupos batistas: os calvinistas, dos seis princípios, do sétimo dia, de comunhão aberta ou mista, dos batistas separados, do livre-arbítrio, dos batistas alemães e dos negros.
Os batistas dos seis princípios organizaram no período de 1656 à 1762 doze igrejas: de Newport (1656), de North Kingston (1665), de South Kingston (1680), de Tiverton (1685), de Smithfield (1706), de Scituate (1725), de Warwick (1725), de Richmond (1725), de Rehoboth (1732), de East Greenwich (1743), de Westherly (1750) e de Bethel (1762), a maioria em Rhode Island e uma em Massachusets.
Os batistas do sétimo dia organizaram no período de 1671 à 1780 quatorze igrejas: de Newport (Rhode Island,1671), de Newtown (Pensilvânia,1700), de Pennepeck (Pensilvania,1700), de Psicataway (New Jersey, 1705), em Hopkinton (Rhode Island,1708), de French Creek (Pensilvânia,1726), em Efrata ( Pensilvânia,1728), de Conogocheage ( Pensilvânia, 1735), de Shiloh (New Jersey,1737), de Monmouth (New Jersey,1745), de Shrewsbury ( New Jersey,1745), de Bulington (New York,1780) e de Berlin ( New York,1780).
No período de 1639 à 1750 os batistas calvinistas organizaram 43 igrejas, mas não conseguiram conter os batistas da nova luz ( mais conhecidos como batistas separados ), um movimento batista moderado que harmonizava o seu calvinismo com métodos de reavivamento. Ele principiou na Nova Inglaterra e incorporava o fogo e fervor do avivamento de George Whitefield.
Os batistas separados surgiram como resultado do Grande Avivamento que aconteceu nos anos 30 e 40 do século XVIII na região Nordeste dos Estados Unidos. A Nova Inglaterra foi atingida e impactada de tal maneira por esse despertamento espiritual que três pregadores se destacaram e deixaram marcas profundas: Gilbert Tennent (1703-1765), Jonathan Edwards (1703–1758) e George Whitefield (1714-1770). A origem dos batistas separados está mais diretamente ligada à influência de Whitefield.
Antes do Grande Avivamento existia um calvinismo conservador, de linha legalista e de governo eclesiástico mais centralizado chamado de “Velha Luz”. Esse calvinismo priorizava a pregação expositiva e doutrinal, mas não era prático e nem evangelístico-missionário. O movimento da “ Nova Luz” enfatizava a ação do Espírito Santo na experiência cristã, uma evangelização conversionista e uma ligação inseparável entre a verdadeira fé e a santidade pessoal.
Os batistas separados possuíam alguns traços distintivos: praticavam o batismo por imersão em nome da Santíssima Trindade, a ceia memorial, o lava-pés, a unção de enfermos, a imposição de mãos sobre os crentes batizados, a dedicação de infantes, o ósculo santo e as refeições comuns. Eles entendiam que não podiam continuar nas igrejas batistas da “ Velha Luz”, pois nelas haviam muitos religiosos que não eram crentes em Cristo e que viviam de aparência. Por isso, baseados em 2 Coríntios 6:17, resolveram adotar o nome de batistas separados, o que contribuiu decisivamente para o crescimento e expansão da fé batista em várias partes dos Estados Unidos.
Os batistas separados foram importantes pela obra missionária-evangelística que desenvolveram através de Isaac Backus (1724-1806), Shubal Stearns (1706-1771) e Daniel Marshall (1706-1784). Em 1755, Shubal Sterns organizou a Igreja Batista de Sandy Creek, na Carolina do Norte, com 16 membros e que logo cresceu para 606. Os membros mudaram para outras regiões e começaram outras igrejas. Em 1758, Stearns fundou a Associação Batista de Sandy Creek, que expandiu a fé batista em todas as direções dos Estados Unidos. Em 1772, 17 anos depois da sua organização, a Igreja Batista de Sandy Creek se tornou mãe e avó de 42 grandes igrejas, a partir das quais saíra 125 pastores.
O Grande Avivamento nos Estados Unidos contribuiu para que houvesse um despertamento para a evangelização e os batistas cresceram 375% no período ente 1740 e 1780, chegando à 1.152 igrejas, em 16 estados e territórios. E mais: eles apoiaram a Revolução Americana, participaram na Guerra da Independencia para garantir a causa da liberdade religiosa e receberam de George Washington a promessa pessoal de que seria incluído na Constituição dos Estados Unidos a “Declaração de Direitos” redigida pelos batistas da Nova Inglaterra e da Virgínia. O apoio batista à causa patriótica fez com que o grupo religioso ganhasse o respeito e a consideração dos líderes políticos e do povo americano.
A cosmovisão batista nos Estados Unidos foi forjada na perseguição, porém, edificada encima da vitalidade puritana herdada dos ingleses. E esse puritanismo se manifestava através de um apelo incondicional à suficiência e supremacia das Sagradas Escrituras; na afirmação da corrupção da natureza humana; na convicção da morte de Cristo na cruz como único meio de salvação; na necessidade da conversão operada pelo Espírito Santo de Deus e na ligação inseparável entre verdadeira fé e santidade pessoal. Contudo, esse puritanismo foi desafiado pelo arminianismo, pelos aspectos individuais do iluminismo, pelo deísmo e pelo liberalismo clássico nos seus pilares religioso, político, econômico, ético e teológico. O resultado prático disto foi observado no amplo direito de divergir, sustentado cuidadosamente pelos grupos batistas que surgiram em solo norte americano.
Muito embora o calvinismo tenha prevalecido entre os batistas dos Estados Unidos depois de 1800, a influencia arminiana não foi apagada. E mais: muitas práticas e costumes foram incorporadas ao modo de ser batista: a guarda do sétimo dia, a tripla ordenança ( batismo por imersão, lava-pés e ceia memorial), hábitos de extremo pietismo, forma de governo muito centralizada e estabelecimento de um grupo de presbíteros em vez de um pastor, além do exclusivismo landmarkista ( crença de que os batistas eram os únicos habitantes do reino de Deus e os legítimos descentes da antiga tradição cristã).
Os batistas do livre arbítrio do Sul dos Estados Unidos (também conhecidos por batistas originais do livre arbítrio), que surgiram na Carolina do Norte, em 1727, e que se organizaram sob a liderança de Paul Palmer (morto em 1747), praticavam, por exemplo, o batismo por imersão mediante a profissão de fé pessoal, o lava-pés dos santos e a unção com óleo, como ordenanças perpétuas da igreja local, segundo Muirhead. Eles se identificavam com o grupo de Helwys da Inglaterra, defendiam a liberdade religiosa, enfatizavam a pluralidade de presbíteros e não aceitavam a liderança feminina na igreja local , enquanto os batistas livres do Norte dos Estados Unidos, organizados por Benjamin Randall (1749-1808), praticaram a ordenação de mulheres ao ministério pastoral.
Com o passar dos anos, as diferenças entre os batistas dos Estados Unidos cresceram muito, mas o sucessionismo se tornou a teoria eclesiológica dominante na construção da sua cosmovisão. Os batistas aprenderam que a Igreja tem uma tripla missão: fazer discípulos, batizar crentes em Cristo e ensinar todos os mandamentos de Cristo. Hoje, existem grupos denominacionais batistas de linha moderada, missionária landmarkista, calvinista reformada, arminiana ortodoxa, regular primitiva, regular étnica, ecumênica, evangélica conservadora e separatista fundamentalista. Segundo Braylock, de 1638 até hoje surgiram mais de 54 grupos e subgrupos batistas nos Estados Unidos.
Os batistas nasceram na Inglaterra, porém, foi nos Estados Unidos o seu maior laboratório de desenvolvimento. Lá surgiram os batistas ortodoxos, moderados, ultraconservadores, radicais, ecumênicos e liberais, debaixo de uma só bandeira: a liberdade religiosa e de consciência, o direito de divergir e de defender suas crenças. Desde 1638 uma verdade foi incorporada à filosofia ministerial batista: o pastor era o líder espiritual da igreja local; pessoa habilitada por Deus para ministrar o ensino bíblico e a sã doutrina ; alguém que cuidava do bem-estar moral e espiritual da igreja, que formava líderes para evangelizar e cumprir o propósito missionário do reino de Deus.

3.A CONSTRUÇÃO DA COSMOVISÃO BATISTA BRASILEIRA

A construção da cosmovisão batista brasileira foi fundamentada em sete princípios distintivos universais estabelecidos na Inglaterra do século XVII e vivenciados pelos vários grupos batistas nos Estados Unidos através dos séculos XVII, XVIII e XIX: o senhorio incondicional de Jesus Cristo sobre a Igreja e a vida dos seus membros; a autoridade do Novo Testamento para derivar princípios teológicos e eclesiásticos para a igreja local;a necessidade da membresia da igreja local ser regenerada pelo Espírito Santo de Deus; todos os membros da igreja terem iguais direitos e deveres; a liberdade plena, dada por Deus, de crer , de adorar e de propagar a fé sem a interferência do Estado estabelecido; a separação entre a Igreja e o Estado, e a prática do evangelismo e do empreendimento missionário.
Os primeiros missionários batistas em solo brasileiro trouxeram dos Estados Unidos a forte influência landmarkista e acabaram ensinando a teoria sucessionista sobre a origem do movimento batista. As consequências foram boas e ruins, porque a teoria sucessionista desenvolvida, em 1850, por James R. Graves (1820-1893) e James M. Pendleton (1822-1889) apregoava que os batistas eram os únicos cristãos verdadeiros , pois representavam a perpetuidade da igreja do Novo Testamento, uma vez que o marco inicial dos batistas coincidia com a História do Cristianismo. Por conta disto, os batistas eram ultrarrestritos na ministração da ceia do Senhor, não abrindo espaço para a participação de membros das outras denominações e nem do seu próprio grupo, se a pessoa não fosse membro da igreja local. E mais: não aceitavam o batismo de outras igrejas que não fosse ministrado por um batista, rejeitavam a troca de púlpito com pregadores de outra denominação por julgarem os líderes das outras igrejas falsos ministros do evangelho , além de reafirmarem a posição radical em relação ao catolicismo romano.
O movimento landmarkista dos missionários norte-americanos, com a sua teoria sucessionista neotestamentária, acabou se casando com o fundamentalismo separatista evangélico do inicio do século XX e os resultados, no Brasil, foram bem complicados no início: quem não fosse batista não era cristão; quem frequentasse uma igreja que não fosse batista era considerado membro de uma igreja falsa; o batismo ministrado por um pastor não-batista era rejeitado por não ser ministrado segundo o Novo Testamento; se um batista se casasse com alguém de outra denominação evangélica ele era excluído do rol de membros da sua igreja. E isto acontecia porque na teoria sucessionista o ponto forte era a igreja local como agência missionária que tinha a responsabilidade de ganhar e conquistar o mundo para Cristo, e para tanto ela precisava de uma unidade ideológica bem dogmática, ou seja, de convicções bem firmadas.
Os missionários norte-americanos se preocuparam em organizar, no Brasil, os batistas local, regional, estadual e nacionalmente,através do seguinte esquema: igreja batista, associação batista, convenção batista estadual e convenção nacional. Através dessa prática se estabeleceu o cooperativismo ( espírito de cooperação e ajuda entre as igrejas e pastores) para se atender as demandas do reino de Deus com mais rapidez e eficácia. Mas não pararam aí, reafirmaram o princípio evangelístico universal dos batistas destacando que o evangelismo pessoal era a expressão máxima de um cristianismo autêntico e eficaz, da mesma forma que o empreendimento missionário era uma maneira de apressar a segunda vinda de Cristo.
Quando a Convenção Batista Brasileira foi organizada, em 1907, alguns princípios foram incorporados ao seu modo de ser, pensar e agir, e que até os dias de hoje continuam sendo uma realidade: a segurança dos crentes em Cristo, a expiação universal de Cristo, uma vida de santidade pessoal na presença do Senhor, compromisso com a proclamação do evangelho, a justificação pela fé, o sacerdócio de cada crente e a supremacia das Sagradas Escrituras, além de um trabalho pastoral voltado para a plantação de novas igrejas e expansão do reino de Deus.

Vários grupos batistas se estabeleceram no Brasil, mas os princípios distintivos universais tem permanecido como elementos identificadores, apesar das práticas e costumes diferentes: a Convenção Batista Brasileira (1907), dos batistas clássicos; a Convenção Batista Nacional (1967), dos batistas renovados; a Convenção das Igrejas Batistas Independentes (1952), dos batistas independentes pentecostais; a Convenção Batista Conservadora no Brasil (1982), dos batistas independentes não pentecostais; a Comunhão Batista Bíblica Nacional (1973), dos batistas bíblicos; a Associação das Igrejas Batistas Regulares do Brasil (1953), dos batistas regulares; a Missão Batista Conservadora do Sul do Brasil (1962), dos batistas conservadores; o Diretório das Igrejas Batistas Fundamentalistas do Brasil (1989), dos batistas fundamentalistas separatistas; a Missão Batista Livre do Brasil (1958), dos batistas do livre arbítrio; a Missão das Igrejas Batistas da Fé no Brasil (1975), dos batistas da fé; a Igreja Evangélica dos Irmãos no Brasil (1952), dos batistas de Schwarzenau; a Associação dos Batistas Para o Evangelismo Mundial (1927), dos batistas do evangelismo mundial; a Conferência Batista do Sétimo Dia Brasileira (1954), dos batistas do sétimo dia ortodoxos; as Igrejas Batistas do Sétimo Dia Renovadas (1982), dos batistas do sétimo dia renovados; a Comunhão Batista do Sétimo Dia no Brasil (1991), dos batistas do sétimo dia pentecostais, e a Comunhão Reformada Batista no Brasil (1995), que agrega os batistas reformados.
Para fortalecer a cosmovisão batista no Brasil foi necessário um batalhão de teólogos competentes para traçar as linhas-mestras da eclesiologia, da doutrina, da ética, da apologética, do biblicismo, do preparo ministerial e do programa editorial denominacional (jornais, revistas, livros, manuais, comentários bíblicos e hinários). Tudo começou com Alva Bee Langston (1878-1965), professor do Seminário Batista do Rio e o primeiro teólogo batista no Brasil,que escreveu : “A Democracia Batista”(1917), “O Princípio do Individualismo em Suas Expressões Doutrinárias”(1933), “Esboço de Teologia Sistemática”(1959), “A Doutrina do Espírito Santo”(1938), “Noções de Ética Prática”(1938), “Teologia Bíblica do Velho Testamento”(1938) e “Teologia Bíblica do Novo Testamento”(1938).
Os outros teólogos que se seguiram foram William Carey Taylor (1886-1971), Asa R. Crabtree (1889-1965), Antonio Neves de Mesquita (1888-1979), Reynaldo Purim (1897-1986), Anibal Pereira Reis (1942-1987), Adrião Bernardes (1891-1969), Alberto Mazoni de Andrade (1906-1957) e Roque Monteiro de Andrade (1922-1989). Foram muitos os líderes e pastores que abraçaram a obra de edificar as igrejas batistas no Brasil, eles investiram na formação de outros líderes, na plantação de igrejas, no fortalecimento da obra missionária e no crescimento do reino de Deus. Zachary C. Taylor (1850-1919), Salomão Ginsburg (1867-1927), William E. Entzminger (1859-1930) e outros edificaram a base da cosmovisão batista. A base da cosmovisão batista brasileira foi a biblicidade, a cristocentricidade, o fortalecimento da igreja local, a crença na competência do indivíduo, a luta pela liberdade religiosa e a formação de um ministério pastoral relevante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A construção da cosmovisão batista brasileira esbarrou numa questão interessante: o papel da igreja local no mundo. Toda ação evangelística da igreja implicava em converter as pessoas dos seus maus caminhos. Toda ação missionária da igreja implicava em conquistar o mundo para Cristo. A teoria sucessionista difundiu uma mensagem desafiadora para a igreja batista brasileira: cada crente um missionário; cada igreja uma agência missionária do reino de Deus. Porém, ninguém ousou pensar na figura humana do pastor, que na maioria das vezes, não tinha uma formação teológica suficiente para fazer frente aos desafios rurais, suburbanos e urbanos do seu tempo.
Na Inglaterra do século XVII, o pastor batista tinha que ser um líder espiritual de impacto, pois o ministério pastoral exigia dele as funções de pregador, doutrinador, discipulador, visitador, conselheiro, apologeta (defensor da fé cristã e do povo de Deus) e formador de líderes, pois a maior parte da população não era instruída. Entre os batistas particulares havia um grande contingente de pastores com formação universitária, enquanto entre os batistas gerais a maioria dos líderes espirituais eram pastores leigos, sem a formação teológica adequada.
Nos Estados Unidos dos séculos XVII e XVIII, o pastor batista, apesar do seu despreparo acadêmico na maioria das vezes, era um evangelista apaixonado, missionário estrategista, plantador de igrejas, pregador por excelência, doutrinador e discipulador de novos crentes. No Brasil do final do século XIX para início do século XX, os pastores batistas eram leigos na sua maioria, mas muito conscientes dos desafios que lhes aguardava. Eles enfrentavam a perseguição do catolicismo romano, o fanatismo popular e a incompreensão das autoridades com determinação, muito empenho e profunda galhardia.
Mas, qual era o segredo de tanto empenho dos pastores batistas ingleses, norte-americanos e brasileiros ? A firme confiança nos princípios distintivos universais da fé batista. Eles defendiam alguns axiomas da religião cristã, tais como: o direito da soberania de Deus sobre tudo e sobre todos; a necessidade de cada pessoa ser alcançada pela mensagem transformadora do evangelho de Cristo; a necessidade de uma Igreja livre num Estado livre. Contudo, eles confiavam na autoridade das Escrituras, na competência do indivíduo, na salvação pela graça de Deus em Cristo, no poder do Espírito Santo, na missão universal da Igreja, na tarefa pastoral, na liberdade religiosa e na cooperação entre as igrejas.

Paulo Vicente Ferreira das Neves
Gleyds Silva Domingues

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